Para que competir? ou Competitive brewing – Why?

Já falei um pouco sobre concursos de cerveja caseira neste espaço mas acredito que seja um assunto que vale a pena ser explorado um pouco mais.

Quando descobri o universo da cerveja caseira uma das coisas que não sabia era da existencia dos concursos. Antes de descobri-los e de participar do meu primeiro concurso achava que eles eram um despropósito ao movimento cervejeiro. Achava que ao invés de promover a troca de experiências e o intercâmbio saudável entre cervejeiros caseiros, que diga-se de passagem, foram coisas que me atraíram a fazer cerveja em casa, os concursos incentivavam a competição exagerada.

Os concursos na verdade servem para duas coisas. Primeiro, definir qual é a melhor cerveja, ou a que melhor se enquadra no estilo proposto. Segundo fornecer o feedback dos juízes para os cervejeiros.

É esse segundo que considero o maior benefício dos concursos para a cultura cervejeira. Somente com o feedback de avaliadores experientes que o cervejeiro caseiro pode identificar os pontos da sua receita e do seu processo que precisam melhorar.

Vejo nos concursos ferramenta chave para a melhora da qualidade das cervejas caseiras e futuramente das cervejas artesanais brasileiras.

E que venham os próximos concursos.

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Histórias Cervejeiras

Eu sempre gostei de cerveja. Quando morei na Alemanha eu já gostava de cerveja, mas quando mudei para lá não tinha 18 anos. Um dia almoçando em um restaurante com o meu pai fiquei constrangido e pedi refrigerante para beber. No meio do almoço meu pai perguntou se eu não preferia beber cerveja.
– Mas pai, eu posso beber cerveja aqui no restaurante? Nem tenho 18 anos ainda.
Ouvindo isso ele chamou a garçonete e perguntou para ela se eu poderia beber cerveja no restaurante e explicou a dúvida por causa da minha idade.
– “NATÜRLICH”. É muito melhor do que essa porcaria que ele está bebendo.
Coisas da Alemanha.

Alguns anos atrás fui visitar um casal de amigos que morava em Leuven na Bélgica. Como a cidade é pequena eles sugeriram que a gente ficasse a tarde inteira indo de bar em bar experimentando cervejas diferentes. LÓGICO que eu aceitei mas antes disso fomos almoçar.
No meio do almoço o Leopoldo voltou do banheiro falando:
– Vocês não vão acreditar, tem uma propaganda de BRAHMA no banheiro. Garçon. Tem BRAHMA?
– Olha. Acabou. Mas não é muito boa não. Pede Stella que é melhor.
Coisas da Bélgica.

Quando de férias em Orlando, nos EUA, eu e minha esposa encontramos um pub irlandês que tinha uma seleção razoável de cervejas. O cardápio devia ter cerca de 15 cervejas artesanais diferentes entre americanas e importadas.
Assim que o garçon percebeu que gostávamos de cerveja artesanal começamos a conversar sobre o assunto.
– Muito interessante o cardápio. Dificilmente encontramos esse tipo de variedade em um bar ou restaurante no Brasil.
– Aqui tem alguma variedade, mas no centro de Orlando tem um bar que eu frequento que tem mais de 100 rótulos diferentes e cerca de 15 on tap.
Coisas de Estados Unidos.

Estilo livre

Como já foi comunicado um dos estilos do concurso nacional de cervejas caseiras de 2012 será o estilo livre com ingredientes brasileiros.

Mesmo sendo estilo livre existem grandes dificuldades em fazer uma cerveja boa nesta categoria.

Uma coisa que precisa ficar clara é que o estilo 23 do BJCP (Specialty Beer) não é vale tudo. As cervejas inscritas neste estilo devem ser cervejas que não se enquadram em nenhum dos outros estilos do BJCP. Precisam ser variações de algum estilo básico mas com algo de diferente.

“This is explicitly a catch-all category for any beer that does not fit into an existing style category. No beer is ever “out of style” in this category, unless it fits elsewhere.

The category is intended for any type of beer, including the following techniques or ingredients:

•Unusual techniques (e.g., steinbier, ice/eis beers)
•Unusual fermentables (e.g., maple syrup, honey, molasses, sorghum)
•Unusual adjuncts (e.g., oats, rye, buckwheat, potatoes)
•Combinations of other style categories (e.g., India Brown Ale, fruit-and-spice beers, smoked spiced beers)
•Out-of-style variations of existing styles (e.g., low alcohol versions of other styles, extra-hoppy beers, “imperial” strength beers)
•Historical, traditional or indigenous beers (e.g., Louvain Peetermann, Sahti, vatted Porter with Brettanomyces, Colonial Spruce or Juniper beers, Kvass, Grätzer)
•American-style interpretations of European styles (e.g., hoppier, stronger, or ale versions of lagers) or other variants of traditional styles
•Clones of specific commercial beers that aren’t good representations of existing styles
•Any experimental beer that a brewer creates, including any beer that simply does not evaluate well against existing style definitions”

No entanto, segundo o regulamento do concurso, além de se enquadrar nesta descrição a cerveja precisa usar algum ingrediente de origem brasileira (a água não conta). Isto criará uma dificuldade adicional a formulação da receita da cerveja. Não é simplesmente:”Minha cerveja ficou fora do estilo que eu queria então vou inscreve-la no estilo livre.”

Vai ser preciso pesquisar muito a flora e a cultura brasileira para descobrir qual o melhor elemento a ser usado e qual a cerveja base que mais combina com este. Afinal um dos pontos que mais pesam na avaliação deste estilo é o quão harmônica foi a combinação do estilo base de cerveja com o ingrediente especial utilizado.

Assim, ao pesquisar os possíveis ingredientes, é preciso levantar qual o perfil de aroma e sabor destes e qual estilo de cerveja que combina mais com eles. O ingrediente especial também precisa aparecer no resultado final da cerveja. Não é só fazer o priming com um doce qualquer que não aparece no gosto da cerveja e inscrever nesta categoria. O gosto do ingrediente precisa aparecer.

“Aroma: The character of the stated specialty ingredient or nature should be evident in the aroma, but harmonious with the other components (yet not totally overpowering them). Overall the aroma should be a pleasant combination of malt, hops and the featured specialty ingredient or nature as appropriate to the specific type of beer being presented.
(…)

Flavor: As with aroma, the distinctive flavor character associated with the stated specialty nature should be noticeable, and may range in intensity from subtle to aggressive. The marriage of specialty ingredients or nature with the underlying beer should be harmonious, and the specialty character should not seem artificial and/or totally overpowering. Hop bitterness, flavor, malt flavors, alcohol content, and fermentation by-products, such as esters or diacetyl, should be appropriate to the base beer (if declared) and be well-integrated with the distinctive specialty flavors present. Some ingredients may add tartness, sweetness, or other flavor by-products.
(…)”

Outro ponto a se considerar é que, se especificado, a cerveja precisa apresentar todas as características do estilo base. A única excessão é se o ingrediente especial utilizado sobrepor alguma delas.

Minha sugestão é: procure um chef de cozinha que conheça bem ingredientes nacionais, pergunte qual o perfil de sabor deles e use a sua experiência para encontrar o estilo de cerveja que mais combina com este perfil. Ou então saia e experimente tudo o que achar de interessante para depois pensar em qual cerveja melhor combina com o que experimentou.

Mas não caia nas armadilhas, algumas frutas que imaginamos serem nativas do Brasil não são. Por isso pesquise MUITO bem e boa sorte.