Uma questão de contexto.

Acho que todo mundo já ouviu de outros colegas cervejeiros ou apreciadores de cerveja comentários parecidos com os abaixo.

– Para mim as Baden são muito alcóolicas, elas estão fora do estilo.
– A Red Ale da Baden está mais para uma barley wine do que uma red ale.
– As cervejas da Amazon são muito fraquinhas.
– A Guinness é muito seca e com pouco álcool.
– Eu prefiro maturar pelo menos 1 mês as minhas cervejas na garrafa, assim elas ficam mais próximas das cervejas importadas.
– American IPA nem é tão diferente assim das IPA inglesas.

Muitos desses comentários são feitos sem considerar o contexto em que a cerveja foi fabricada ou degustada.

Contexto histórico, comercial, geográfico, gastronômico, etc.

O primeiro caso é o contexto geográfico. Se uma cervejaria está localizada em uma região com um determinado clima e suas cervejas foram concebidas para serem consumidas localmente, nada melhor do que adequa-las ao clima local.
Primeiro exemplo são as Baden Baden de Campos do Jordão. Campos é uma conhecida estância climática no alto da Serra da Mantiqueira com temperaturas que vão de 23oC/13oC (médias máxima e mínimas) no verão a 16oC/4oC no inverno. Com um clima mais frio nada melhor que uma cerveja com o teor alcóolico e percepção do álcool mais acentuadas.
Segundo exemplo são as cervejas da Amazon Beer de Belém do Pará criticadas por serem leves demais, tendo a Bacuri só 1,8% ABV. Belém do Pará registra temperaturas máximas médias de 31oC e mínimas médias de 22oC. Nada melhor que uma cerveja leve para refrescar o corpo nesses dias quentes.

O segundo caso é o contexto de onde a cerveja é consumida. A Guinness é um exemplo clássico de cerveja de pub. E não existe inglês ou irlandês que se preze que vá a um pub para beber somente um pint. Fosse a Guinness uma cerveja mais encorpada e com um teor alcóolico muito maior que seus 4.2% ABV dificilmente alguém conseguiria consumir mais do que um pint em uma noite.

Neste mesmo contexto mas olhando por outro ângulo podemos levantar a questão do frescor vs. maturação. Existe uma certa obceção dos home brewers brasileiros em maturar na garrafa excessivamente (na minha opinião) alguns estilos de cerveja. Algo que muitos esquecem é que a mesma cerveja se consumida em locais diferentes irá apresentar sabor e aroma diferentes. O maior culpado disso é o transporte e a armazenagem. Um fato que muitos ignoram é que nós, no Brasil, só bebemos cervejas importadas OXIDADAS e MALTRATADAS pelo transporte. E se ignorarmos esse fato ficaremos com o conceito errado que um pouco de OXIDAÇÃO É BOM. Quem já tomou uma American IPA na torneira da cervejaria que a fez nos EUA, ou tomou uma Baladin lá no vale do Barolo na Itália sabe que a cerveja que tomamos no Brasil é apenas uma sombra do que ele é na origem.

Por isso sempre que formos degustar e avaliar uma cerveja é preciso levar em consideração o contexto.

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