Até na Alemanha

Algum tempo atrás me deparei com o textoAnother sign of beer change in Germany” no blog Appellation Beer do Stan Hieronymus. O interessante do texto é como ele descreve a entrevista dada pelo cervejeiro Han-Peter Drexler da cervejaria Private Weissbierbrauerei G. Schneider & Sohn a revista All About Beer em 2008.

The German beer market is deadly boring,” disse ele a reporter Sylvia Kopp em 2008, “It is all very much the same. The tendency towards sameness is encouraged, for example, by our domestic beer tests rating beer only by its typicality and flawlessness. Creativity is only acted on in the beer mix category.

“O mercado (cervejeiro) alemão é entediante, é tudo mais ou menos igual. A tendência para fazer sempre a mesma coisa é encorajada, por exemplo, por avaliações de cerveja que presam pela caracterização dentro de um estilo e pela falta de defeitos. A criatividade só aparece na categoria de misturas de cervejas.”

Lendo o artigo completo da revista All About Beer Ruled by the Reinheitsgebot? percebemos que o mercado alemão de cerveja, ou o consumidor alemão de cerveja, é muito similar ao brasileiro. Outro ponto interessante do artigo é que ele é escrito por uma reporter alemã, sommelier de cerveja e juiz do World Beer Cup. Ou seja, é a visão local sobre o mercado local por alguém que entende do assunto.

No artigo a repórter relata como é difícil encontrar diversidade de cervejas nos bares e restaurantes da Alemanha. Ela conta que você só deve esperar encontrar a cerveja local ao entrar em um bar, uma Kölsch em Colônia, Helles na Bavaria, Bavarian Weißbier em Murnau própximo a Munich, Alt em Düsseldorf e Rauchbier em Bamberg, mas que na maioria dos bares a única cerveja disponível será uma Pilsner das grandes marcas como Krombacher, Bitburger, Beck’s, Veltins, Radeberger ou Warsteiner.

O texto também descreve como o alemão trata a cerveja como um comodity e que sempre que procura uma bebida mais complexa ele se volta para o vinho pois a cerveja é considerada uma bebida para matar a sede e não como algo complexo e refinado. Outro ponto é que o consumidor alemão é muito mais ligado a marca de cerveja, dando mais importância ao marketing do que ao sabor.

No entanto, mesmo com séculos de tradição, somente nos últimos anos que a situação começou a mudar. Primeiro com os cervejeiros dando uma ênfase maior para disceminar o conhecimento sobre a cerveja e com as cervejarias alemãs procurando sair do tradicional e introduzir sabores novos no mercado. Segundo Sebastian B. Priller, dono da Brauhaus Riegele, cervejaria de Augsburg:

“When it comes to beer, Germans focus more on marketing, branding, sponsoring, pricing and all that, instead of talking about the product itself. I think it is high time to put the beer first: its taste, its ingredients, the way it is brewed, the food it pairs with. And we need to live this culture and celebrate beer like they do with wine.”

“Quando se trata de cerveja, os alemães se preocupam mais com marketing, marca, patrocínio e preço ao invest de olhar o produto pelo que ele é. Eu acredito que é hora de colocar a cerveja em primeiro lugar: seu sabor, seus ingredients, a maneira como ela é feita, comidas que harmonizam com ela. E precisamos viver esta cultura e celebrar a cerveja como fazemos com o vinho.”

“Consumers won’t ask for beer culture by themselves. We have to celebrate it and show them how much fun it is to enjoy beer like this.”

“Os consumidores não irão solicitor por cultura cervejeira. Nós precisamos celebra-la e mostrar o quão divertido pode ser apreciar cerveja desta forma.”

Mas mesmo nesse panorama de mesmice alguns tentam inovar. Esta entrevista foi dada na mesma época da colaboração da Schneider com a cervejaria Brooklyn na cerveja Meine Hopfen-Weissen Tap 5 (ou Schneider & Brooklyner Hopfen-Weisse). Na época não existiam na Alemanha cervejas de trigo com uso acentuado de lúpulos de aroma. Em outro trecho da entrevista, agora com Georg Schneider IV, dono da cervejaria:

If you brew a beer that not everybody likes, you have the wonderful effect that people talk about it.

“Se você faz uma cerveja que nem todo mundo gosta você tem o maravilhoso efeito que todos vão falar a respeito”.

Na sequência, Drexler completa: “We’ve got to take people by the hand and lead them to new worlds of taste. Customers, as well as chefs, culinary staff and traders, are searching for innovations.”

“Nós precisamos guiar as pessoas pelas mãos e leva-las a novos horizontes de sabor. Os consumidores, assim como os chefs de cozinha, e distribuidores estão buscando por inovação.”

Em 2011 a Schneider lançou mais uma inovação no mercado alemão e mundial, a Tap X Mein Nelson Sauvin, uma Weissen com lúpulos da Nova Zelândia (Nelson Sauvin) também de caracter cítrico.

Bom ver que mesmo em um mercado marcado pelo tradicionalismo ainda existe gente inovando. Mais uma lição para os cervejeiros brasileiros.

2 Responses to Até na Alemanha

  1. André Nucci disse:

    Muito parecido com o mercado brasileiro. E é a mesma reclamação que as novas cervejarias fazem da CAMRA no Reino Unido. Limitação de possibilidades, homogeneização de sabores e etc.

    Vai demorar pra mudar isso aí.

    • André, a questão é educar. Nós amantes de cerveja artesanal precisamos educar os que estão a nossa volta, mostrar opção e abrir a cabeça. Quanto mais gente conhecer a diversidade das cervejas artesanais, mais espaço existirá para inovação.

%d blogueiros gostam disto: