Beerblog.com.br e HopCast

Pessoal,
Venho aqui divulgar mais um blog cervejeiro que está surgindo.
O Fuggles Beer Blog (beerblog.com.br) foi criado pelo Horácio Moreira e terá contribuições periódicas do Rodrigo Casarin, Victor Pereira e eu mesmo.

Além disso iremos fazer quinzenalmente o HopCast, um podcast sobre cerveja.

Os idealizadores do podcast foram o Horácio e o Rodrigo mas também terá a participação do Victor e de mim.

Deem uma olhada no blog e ouçam o HopCast. Deixem seus comentários e sugestões. Estamos abertos a melhorar sempre o formato do hopcast.

Se quiserem baixar o primeiro HopCast direto daqui basca clicar o link abaixo.

HopCast! – 001 | A cerveja além da cerveja e outras histórias…

Ou então adicionem o link abaixo no seu agregador de podcasts.

http://feeds.feedburner.com/FugglesBeerBlog

abraços
Linus

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BBC

HISTÓRICO

A atividade cervejeira no Brasil está vivendo uma revolução que começou há cerca de dez anos. As importações de cervejas especiais aumentaram significativamente, cervejarias artesanais vem conquistando uma fatia importante do mercado – ainda que em comparação com as cervejarias de massa seja uma fatia pequena – e os cervejeiros caseiros estão proliferando velozmente e alcançando um nível de excelência na produção comparável ao de países com grande tradição nesta área.

Desde meados da década passada, um grupo de entusiastas acompanha de perto e documenta por meio da internet este processo, publicando cotidianamente ideias, informações e opiniões sobre as mudanças que assistimos neste setor no país. Trata-se de um grupo diversificado em pensamento e ação, que reúne profissionais dos mais diversos ramos do saber, unidos pela paixão por cervejas de qualidade: os blogueiros de cerveja.

Suas palavras alcançam um número crescente de leitores sedentos por saber mais sobre uma das bebidas mais antigas conhecidas pela humanidade. Por isso, influenciam um número também crescente de profissionais de mídia acostumados a lidar apenas com as gigantes cervejeiras globais que, por longos anos, mantiveram domínio absoluto do mercado.

Conscientes de seu papel na difusão da cultura cervejeira no Brasil, após realizarem trabalhos conjuntos para medir a amplitude deste movimento e desenvolverem um fórum online de debates, os blogueiros começaram a se organizar efetivamente em 2011. O presente documento tem a intenção de propor os pontos de convergência dos pensamentos dos integrantes – profissionais e amadores – deste grupo, e propor linha gerais de atuação que reflitam suas preocupações comuns.

PRINCÍPIOS

Os Blogueiros Brasileiros de Cerveja (BBC) entendem que a divulgação da cultura cervejeira e a análise do mercado cervejeiro devem obedecer a princípios fundamentais de ética, liberdade de expressão e responsabilidade.

Sendo assim, os integrantes do BBC passam a assumir perante o público os seguintes compromissos:

• De fornecer informações e opiniões isentas de influências comerciais indevidas, devendo ser expressas claramente quaisquer condições de produção do material que possam afetar essa isenção;
• De incentivar, em suas manifestações online e offline, o consumo responsável de bebidas alcoólicas;
• De identificar, sem exceções e com o devido destaque, a autoria e a fonte dos materiais (textos, vídeos, imagens) usados que não sejam de produção do responsável pelo blog e seus eventuais colaboradores;
• De indicar de forma objetiva, adotando quaisquer abordagens e nomenclaturas que julgarem convenientes, a forma de produção das cervejas apresentadas em resenhas e reportagens, distinguindo nitidamente as bebidas caseiras das comerciais;
• De adotar práticas condizentes com as boas intenções expressas neste documento, buscando o convívio harmonioso e o fortalecimento da união de esforços com os demais integrantes do grupo.

AÇÕES

Para identificar os blogs administrados em concordância com os princípios desta declaração, o grupo adotará um selo que será conferido, posteriormente, aos blogueiros que manifestarem vontade de agir de acordo com tais princípios, e deverá ser mantido por estes enquanto isto ocorrer.

Os blogs reunidos sob esta organização buscarão realizar ações conjuntas em prol da difusão da cultura cervejeira no país, que podem tomar a forma de campanhas, eventos, e quaisquer outros meios considerados compatíveis com os ideais expostos neste documento.

Tais ações poderão ser definidas e desenvolvidas por quaisquer dos integrantes do grupo, devendo ter o apoio dos restantes na medida do que estes considerarem pertinente.

Blumenau, Santa Catarina, 24 de março de 2012

ASSINADO
Alexandre Bratt – CluBeer

Bernardo Couto – Homini Lúpulo

Bruno Couto – Eu Bebo Sim

Daniel Conde Perez – A volta ao mundo em 700 cervejas

Fabian Ponzi – Bebendo Bem

Fabio Andreoli – Ein Prosit Empório

Fabio Hofnik – Cerveja Brasilis

Guilherm Schwinn – Gastrobirra

Gustavo Corrêa – De gole em gole

João Fanchin Queiroz – Bar do Jota

João Gabriel Margutti Amstalden – Panela de Malte

Linus De Paoli – Rotenfuss Bier

Lucas Serafini – Cervejas Especiais

Luciano Castro – O Mestre Cervejeiro

Luís Celso Sniecikoski Jr. – Bar do Celso

Marcelo Ricardo Monich – Cerveja? Gosto sim.

Marcio Beck – A volta ao mundo em 700 cervejas

Mauricio Beltramelli – Brejas

Nicholas Bittencourt – Goronah

Rafael Borges – Have a Nice Beer

Raphael Rodrigues – All Beers

Robson Vergilio – Vergilio

60% da cerveja, quem bebe, é o governo

Hoje, durante o Festival da Cerveja em Blumenal, as 17:00 vai rolar um protesto contra a alta carga tributária que incide sobre as cervejas artesanais no país.

Essa alta tributação inviabiliza a criação de novas nano e micro cervejarias no país e ainda vai inviabilizar e fechar muitas das micro já existentes.

Nós como consumidores precisamos exigir dos nossos representantes no legislativo federal que essa política seja revista. Mas principalmente as micro precisam se organizar e lutar UNIDAS para esta causa comum.

Ótima notícia

A notícia é tão boa que merece ser replicada aos quatro cantos desse país proto cervejeiro.

O Roberto Fonseca do Blog do B.O.B. deu o furo que a Bodebrown e a Lamas Brew Shop (que ainda vai abrir) irão vender oficialmente fermentos White Labs no Brasil.

Bora abrir uma cerveja artesanal hoje e comemorar.

http://blogs.estadao.com.br/bob/bodebrown-fecha-acordo-com-whitelabs/comment-page-1/#comment-2110

Eleição dos rótulos mais bonitos do Brasil

O site Homini Lúpulo fez uma pesquisa para escolher os rótulos de cerveja mais bonitos do Brasil. Eu fui convidado a participar da escolha que foi feita por indicação livre de cada participante.

Segue o link do resultado

http:// http://www.hominilupulo.com.br/universo-da-cerveja/rotulos-mais-bonitos-do-brasil/

Até na Alemanha

Algum tempo atrás me deparei com o textoAnother sign of beer change in Germany” no blog Appellation Beer do Stan Hieronymus. O interessante do texto é como ele descreve a entrevista dada pelo cervejeiro Han-Peter Drexler da cervejaria Private Weissbierbrauerei G. Schneider & Sohn a revista All About Beer em 2008.

The German beer market is deadly boring,” disse ele a reporter Sylvia Kopp em 2008, “It is all very much the same. The tendency towards sameness is encouraged, for example, by our domestic beer tests rating beer only by its typicality and flawlessness. Creativity is only acted on in the beer mix category.

“O mercado (cervejeiro) alemão é entediante, é tudo mais ou menos igual. A tendência para fazer sempre a mesma coisa é encorajada, por exemplo, por avaliações de cerveja que presam pela caracterização dentro de um estilo e pela falta de defeitos. A criatividade só aparece na categoria de misturas de cervejas.”

Lendo o artigo completo da revista All About Beer Ruled by the Reinheitsgebot? percebemos que o mercado alemão de cerveja, ou o consumidor alemão de cerveja, é muito similar ao brasileiro. Outro ponto interessante do artigo é que ele é escrito por uma reporter alemã, sommelier de cerveja e juiz do World Beer Cup. Ou seja, é a visão local sobre o mercado local por alguém que entende do assunto.

No artigo a repórter relata como é difícil encontrar diversidade de cervejas nos bares e restaurantes da Alemanha. Ela conta que você só deve esperar encontrar a cerveja local ao entrar em um bar, uma Kölsch em Colônia, Helles na Bavaria, Bavarian Weißbier em Murnau própximo a Munich, Alt em Düsseldorf e Rauchbier em Bamberg, mas que na maioria dos bares a única cerveja disponível será uma Pilsner das grandes marcas como Krombacher, Bitburger, Beck’s, Veltins, Radeberger ou Warsteiner.

O texto também descreve como o alemão trata a cerveja como um comodity e que sempre que procura uma bebida mais complexa ele se volta para o vinho pois a cerveja é considerada uma bebida para matar a sede e não como algo complexo e refinado. Outro ponto é que o consumidor alemão é muito mais ligado a marca de cerveja, dando mais importância ao marketing do que ao sabor.

No entanto, mesmo com séculos de tradição, somente nos últimos anos que a situação começou a mudar. Primeiro com os cervejeiros dando uma ênfase maior para disceminar o conhecimento sobre a cerveja e com as cervejarias alemãs procurando sair do tradicional e introduzir sabores novos no mercado. Segundo Sebastian B. Priller, dono da Brauhaus Riegele, cervejaria de Augsburg:

“When it comes to beer, Germans focus more on marketing, branding, sponsoring, pricing and all that, instead of talking about the product itself. I think it is high time to put the beer first: its taste, its ingredients, the way it is brewed, the food it pairs with. And we need to live this culture and celebrate beer like they do with wine.”

“Quando se trata de cerveja, os alemães se preocupam mais com marketing, marca, patrocínio e preço ao invest de olhar o produto pelo que ele é. Eu acredito que é hora de colocar a cerveja em primeiro lugar: seu sabor, seus ingredients, a maneira como ela é feita, comidas que harmonizam com ela. E precisamos viver esta cultura e celebrar a cerveja como fazemos com o vinho.”

“Consumers won’t ask for beer culture by themselves. We have to celebrate it and show them how much fun it is to enjoy beer like this.”

“Os consumidores não irão solicitor por cultura cervejeira. Nós precisamos celebra-la e mostrar o quão divertido pode ser apreciar cerveja desta forma.”

Mas mesmo nesse panorama de mesmice alguns tentam inovar. Esta entrevista foi dada na mesma época da colaboração da Schneider com a cervejaria Brooklyn na cerveja Meine Hopfen-Weissen Tap 5 (ou Schneider & Brooklyner Hopfen-Weisse). Na época não existiam na Alemanha cervejas de trigo com uso acentuado de lúpulos de aroma. Em outro trecho da entrevista, agora com Georg Schneider IV, dono da cervejaria:

If you brew a beer that not everybody likes, you have the wonderful effect that people talk about it.

“Se você faz uma cerveja que nem todo mundo gosta você tem o maravilhoso efeito que todos vão falar a respeito”.

Na sequência, Drexler completa: “We’ve got to take people by the hand and lead them to new worlds of taste. Customers, as well as chefs, culinary staff and traders, are searching for innovations.”

“Nós precisamos guiar as pessoas pelas mãos e leva-las a novos horizontes de sabor. Os consumidores, assim como os chefs de cozinha, e distribuidores estão buscando por inovação.”

Em 2011 a Schneider lançou mais uma inovação no mercado alemão e mundial, a Tap X Mein Nelson Sauvin, uma Weissen com lúpulos da Nova Zelândia (Nelson Sauvin) também de caracter cítrico.

Bom ver que mesmo em um mercado marcado pelo tradicionalismo ainda existe gente inovando. Mais uma lição para os cervejeiros brasileiros.

Uma questão de contexto.

Acho que todo mundo já ouviu de outros colegas cervejeiros ou apreciadores de cerveja comentários parecidos com os abaixo.

– Para mim as Baden são muito alcóolicas, elas estão fora do estilo.
– A Red Ale da Baden está mais para uma barley wine do que uma red ale.
– As cervejas da Amazon são muito fraquinhas.
– A Guinness é muito seca e com pouco álcool.
– Eu prefiro maturar pelo menos 1 mês as minhas cervejas na garrafa, assim elas ficam mais próximas das cervejas importadas.
– American IPA nem é tão diferente assim das IPA inglesas.

Muitos desses comentários são feitos sem considerar o contexto em que a cerveja foi fabricada ou degustada.

Contexto histórico, comercial, geográfico, gastronômico, etc.

O primeiro caso é o contexto geográfico. Se uma cervejaria está localizada em uma região com um determinado clima e suas cervejas foram concebidas para serem consumidas localmente, nada melhor do que adequa-las ao clima local.
Primeiro exemplo são as Baden Baden de Campos do Jordão. Campos é uma conhecida estância climática no alto da Serra da Mantiqueira com temperaturas que vão de 23oC/13oC (médias máxima e mínimas) no verão a 16oC/4oC no inverno. Com um clima mais frio nada melhor que uma cerveja com o teor alcóolico e percepção do álcool mais acentuadas.
Segundo exemplo são as cervejas da Amazon Beer de Belém do Pará criticadas por serem leves demais, tendo a Bacuri só 1,8% ABV. Belém do Pará registra temperaturas máximas médias de 31oC e mínimas médias de 22oC. Nada melhor que uma cerveja leve para refrescar o corpo nesses dias quentes.

O segundo caso é o contexto de onde a cerveja é consumida. A Guinness é um exemplo clássico de cerveja de pub. E não existe inglês ou irlandês que se preze que vá a um pub para beber somente um pint. Fosse a Guinness uma cerveja mais encorpada e com um teor alcóolico muito maior que seus 4.2% ABV dificilmente alguém conseguiria consumir mais do que um pint em uma noite.

Neste mesmo contexto mas olhando por outro ângulo podemos levantar a questão do frescor vs. maturação. Existe uma certa obceção dos home brewers brasileiros em maturar na garrafa excessivamente (na minha opinião) alguns estilos de cerveja. Algo que muitos esquecem é que a mesma cerveja se consumida em locais diferentes irá apresentar sabor e aroma diferentes. O maior culpado disso é o transporte e a armazenagem. Um fato que muitos ignoram é que nós, no Brasil, só bebemos cervejas importadas OXIDADAS e MALTRATADAS pelo transporte. E se ignorarmos esse fato ficaremos com o conceito errado que um pouco de OXIDAÇÃO É BOM. Quem já tomou uma American IPA na torneira da cervejaria que a fez nos EUA, ou tomou uma Baladin lá no vale do Barolo na Itália sabe que a cerveja que tomamos no Brasil é apenas uma sombra do que ele é na origem.

Por isso sempre que formos degustar e avaliar uma cerveja é preciso levar em consideração o contexto.

Histórias Cervejeiras

Eu sempre gostei de cerveja. Quando morei na Alemanha eu já gostava de cerveja, mas quando mudei para lá não tinha 18 anos. Um dia almoçando em um restaurante com o meu pai fiquei constrangido e pedi refrigerante para beber. No meio do almoço meu pai perguntou se eu não preferia beber cerveja.
– Mas pai, eu posso beber cerveja aqui no restaurante? Nem tenho 18 anos ainda.
Ouvindo isso ele chamou a garçonete e perguntou para ela se eu poderia beber cerveja no restaurante e explicou a dúvida por causa da minha idade.
– “NATÜRLICH”. É muito melhor do que essa porcaria que ele está bebendo.
Coisas da Alemanha.

Alguns anos atrás fui visitar um casal de amigos que morava em Leuven na Bélgica. Como a cidade é pequena eles sugeriram que a gente ficasse a tarde inteira indo de bar em bar experimentando cervejas diferentes. LÓGICO que eu aceitei mas antes disso fomos almoçar.
No meio do almoço o Leopoldo voltou do banheiro falando:
– Vocês não vão acreditar, tem uma propaganda de BRAHMA no banheiro. Garçon. Tem BRAHMA?
– Olha. Acabou. Mas não é muito boa não. Pede Stella que é melhor.
Coisas da Bélgica.

Quando de férias em Orlando, nos EUA, eu e minha esposa encontramos um pub irlandês que tinha uma seleção razoável de cervejas. O cardápio devia ter cerca de 15 cervejas artesanais diferentes entre americanas e importadas.
Assim que o garçon percebeu que gostávamos de cerveja artesanal começamos a conversar sobre o assunto.
– Muito interessante o cardápio. Dificilmente encontramos esse tipo de variedade em um bar ou restaurante no Brasil.
– Aqui tem alguma variedade, mas no centro de Orlando tem um bar que eu frequento que tem mais de 100 rótulos diferentes e cerca de 15 on tap.
Coisas de Estados Unidos.

Cervochatos ou Profissionais da Cerveja

No blog do Programa Pão e Cerveja de CBN a Fabiana Arreguy comenta sobre a população de cervochatos que vem se formando no Brasil.

Concordo 100% com a Fabiana, nada mais chato que uma pessoa sentada em uma mes de bar “analisando” a cerveja que só queremos tomar enquanto batemos papo e comemos um petisco (sem harmonizar, PECADO).
Mas precisamos separar o que é o cervochato do profissional.

O cervochato é o que analisa a cerveja sem ser solicitado. Ele poe defeitos na cerveja que o amigo bebe. Ele não vai em um bar com os amigos porque lá não tem “cerveja de verdade”. Ele não come porção de batata frita porque não harmoniza com a stout que ele está tomando.

O profissional da cerveja é, como falei, profissional em avaliação. Ele faz isso no trabalho dele e sem perceber fora do trabalho também. Seja um sommelier avaliando cervejas para montar um jantar harmonizado em um restaurante, ou para propor uma carta de cervejas, seja um mestre cervejeiro avaliando a sua própria produção ou avaliando outras cervejas para identificar sabores e possíveis ingredientes e processos.

O profissional da cerveja é muito parecido com um chef de cozinha. Mesmo sem querer ele avalia a comida e pensa em como ela pode ter sido feita. Ele pensa em harmonizações e em possíveis melhorias.

O profissional da cerveja é parecido com qualquer profissional. Eu sou engenheiro mecânico e trabalho com avaliação de carros. Mesmo fora do trabalho eu avalio todos os carros que dirijo, levantando defeitos e qualidades.
Esse comportamento é inerente a profissão e a paixão por ela.

O que o profissional precisa fazer é tomar muito cuidado para não virar um chato. Saber identificar quando as pessoas em volta estão dispostas a ouvirem as avaliações e as críticas e quando elas só querem jogar conversa fora.

Cerveja e o Movimento Modernista Brasileiro

O movimento cervejeiro brasileiro tem passado  nos últimos meses (ou anos talvez) por algumas discussões sobre se já temos ou se está em formação uma escola brasileira de cerveja. Se podemos aspirar em definir uma identidade nacional na produção de cervejas artesanais.

Muito já se falou sobre isso, vide abaixo:

http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos+paladar,a-busca-do-dna-proprio,4523,0.shtm

http://colunas.cbn.globoradio.globo.com/platb/paoecerveja/2011/04/13/escola-brasileira-de-cervejas-quando/

http://telecerveja.blogspot.com/2010/12/escola-brasileira-de-cerveja.html

http://cervejariabamberg.blogspot.com/2011/05/escola-cervejeira.html

http://gastrobirra.wordpress.com/2011/06/30/alma-brasileira/

http://paragrafo11.com/2011/05/25/debate-sobre-a-identidade-da-cerveja-brasileira-beleza-interior-e-exterior/

http://www.mestre-cervejeiro.com/artigos/a-identidade-brasileira-na-cerveja.html

http://hummcerveja.blogspot.com/2008/11/escola-brasileira_03.html

http://www.gazetadopovo.com.br/colunistas/conteudo.phtml?tl=1&id=1097604&tit=Cervejas-a-brasileira

http://worldofbeer.wordpress.com/2010/12/13/about-those-brazilian-craft-breweries/

http://dreiadler.com.br/inside/?p=297

http://dreiadler.com.br/inside/?p=395

Na opinião de alguns, já trilhamos este caminho com inovações como o uso de rapadura e mandioca pela Cervejaria Colorado, bacuri pela Amazon Beer e Jaboticaba pela Falke Bier. Na opinião de outros ainda temos um longo caminho a trilhar e precisamos primeiro dominar a técnica e os estilos existentes, produzir cerveja de qualidade e sem defeitos de produção antes de buscar uma identidade própria.

Toda essa discussão me fez lembrar do movimento modernista do início do século XX. Acho que todo mundo que não dormiu nas aulas de literatura do colegial lembra da Semana de Arte Moderna de 1922 e do subsequente Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade.

Só para lembrar, o movimento modernista no Brasil foi caracterizado pela ruptura com as regras e movimentos artísticos anteriores e pela busca de uma identidade nacional através da assimilação seletiva das novas escolas européias (cubismo, futurismo, etc.) e adequação as singularidades da cultura brasileira. O modernismo também foi marcado pela liberdade de estilos e a aproximação com o coloquial, o costumeiro.

O movimento iniciou formalmente com a Semana de Arte Moderna de 1922 e foi com a publicação do Manifesto Pau Brasil em 1924 e Manifesto Antropófago em 1928 que ele formalizou a busca pela identidade nacional. Ambos de forma mais enfática pregavam a ruptura com os movimentos e escolas européias e a assimilação (“deglutição”) crítica destas, com o fim de recriá-las, tendo em vista o redescobrimento do Brasil em sua autenticidade primitiva.

Manifesto Antropófago

Mas o que tem o Movimento Modernista a ver com o movimento cervejeiro brasileiro?

TUDO.

Será que os trechos abaixo em nada tem a ver com as discussões contemporâneas dos colegas do movimento cervejeiro?

“Nossa época anuncia a volta ao sentido puro.
Um quadro são linhas e cores. A estatuária são volumes sob a luz.
A Poesia Pau-Brasil é uma sala de jantar das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jornal anda todo o presente.
Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres.”

Manifesto Pau Brasil, 1924

“Tupi, or not tupi that is the question.
Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos.
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitos postos em
drama.”

“Contra as sublimações antagônicas. Trazidas nas caravelas.
Contra a verdade dos povos missionários, definida pela sagacidade de um antropófago, o Visconde de Cairu -É mentira muitas vezes repetida.
Mas não foram cruzados que vieram. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo, porque somosfortes e vingativos como o Jabuti”.
Manifesto Antropófago – 1928

 

Depois de participar, ler e ouvir tantas discussões sobre se existe ou como desenvolver uma escola cervejeira brasileira, a associação de um movimento com o outro é clara.

Tupi, or not tupi? Eu já acho que é melhor dizer: Açaí, or not açaí?

Como engenheiro eu entendo os questionamentos dos que acham que o momento é de desenvolver a técnica e produzir uma cerveja de qualidade. Como engenheiro em meu trabalho eu procuro sempre executar com precisão a técnica para entregar ao consumidor um produto impecável. E não há nada de errado em se buscar excelência técnica na produção cervejeira e entregar um produto distinto dos concorrentes e ao mesmo tempo impecável na produção.

Não sou especialista em história da arte ou literatura, mas imagino que os modernistas devem ter sido questionados de forma similar. Será que a arte e a literatura brasileira já eram tão evoluídas a ponto de buscar se descolar das escolas européias? Se Tarcila do Amaral buscasse se aperfeiçoar tanto na pintura realista ela teria feito o Abaporu? Se Mário de Andrade tentasse se aprofundar tanto no expressionismo alemão ele teria escrito Macunaíma?

Abaporu

Mas como cervejeiro amador eu também entendo a paixão pela criação. Em buscar colocar no produto um pouco do coração, da filosofia, da identidade do seu produtor.

Os dois caminhos são válidos. O da técnica e o da arte.

O que proponho é que na busca de um estilo ou escola cervejeira brasileira devamos seguir o caminho apontado pelos modernistas. Assimilar de forma crítica os estilos, técnicas, ingredientes das escolas tradicionais, buscar uma identidade nacional baseada na natureza, história e cultura brasileiras e recriar os estilos tradicionais pela ótica antropofágica.

Para isso, precisamos dominar os estilos e técnicas tradicionais para produzir cerveja de qualidade pois somente com este domínio que iremos ter sempre o resultado planejado. E nunca deixar de tentar incorporar ingredientes e sabores nacionais nas nossas cervejas.

Afinal temos no Brasil a maior bio diversidade do planeta. Temos mais de 200 tipos de frutas únicos.

Temos uma cultura vasta e miscigenada que evoluiu da mistura de europeus, africanos, asiáticos e índios. A cultura brasileira é a cultura da miscigenação.

Vamos fazer cerveja com fruta, erva mate e boldo. Vamos fazer IPA com lúpulo tcheco, pilsen com fermento ale, cerveja de quinoa.

Vamos miscigenar a cultura cervejeira brasileira.

Não sou inocente a ponto de achar que uma análise simplista do movimento modernista e cervejeiro feita por um novato (eu) irá mudar a o rumo da discussão.

Só quero estimula-la ainda mais para que do caos surja algo novo e indiscutivelmente nacional.